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20/06/2018

A grande corrupção está sempre vinculada às empresas, diz filósofo Pondé, em evento na Fiep

Processos transparentes com decisões colegiadas e não na mão de poucas pessoas é uma forma de manter a ética nos negócios

A grande corrupção se dá na fronteira entre o Estado e as empresas porque o Estado por si só não tem dinheiro. Portanto, não há corrupção que não seja vinculada a grandes corporações. A afirmação é do filósofo e escritor brasileiro Luiz Pondé, que fez a palestra de encerramento do 3º Fórum de Transparência e Competitividade, realizado nesta segunda-feira (21) pelo Sistema Federação das Indústrias do Paraná (Fiep), em parceria com o Cifal, organismo das Nações Unidas.

Segundo o filósofo, o Brasil passa por um momento muito interessante. ?Está havendo uma ruptura porque com a ajuda das mídias sociais os casos de corrupção se tornam escândalos acessíveis à grande população e isso gera um certo transtorno?, disse. De acordo com Pondé, do ponto de vista das empresas isso vai produzir também uma ruptura no sentido de ampliar os processos transparentes e sistemáticos de decisão. ?O combate à corrupção melhora quando se tem menos decisões nas mãos de pessoas e as decisões passam a ser colegiadas?, destacou.

Pondé trouxe a reflexão da ética como hábito e levantou alguns problemas que caminham na direção da democracia e da política. ?Ética é uma ciência da prática, isso já nos ensinou o filósofo Aristóteles. Ética não é teoria. Posso dar uma aula sobre coragem e vocês não vão ganhar um centímetro de coragem. Você só vai experimentar coragem, se você estiver diante de uma situação em que você tiver que escolher entre pagar o fiscal e se liberar da fiscalização; ou não pagar e fechar o seu negócio?, exemplificou ao dizer que o sistema tributário é tão pesado que pode levar um empresário à falência.

Ele ainda provocou o público dizendo que ?no Brasil para você ser honesto você tem que ter algum dinheiro. Porque se você não tiver algum dinheiro, você não vai conseguir ser honesto pois a corrupção no nível médio ou pequeno pode ser mais barata do que você tentar não ser corrupto?, afirmou ao dizer que esse é papel dos empresários, por estarem numa situação econômica mais organizada, levantarem bandeiras como a da integridade e transparência.

Para ele, o combate à corrupção chegará a um patamar aprofundado e eficiente ?quando passar a ser vergonha ter um corrupto em casa ou na família. E a vergonha de ter um corrupto na família será semelhante à de ter um pedófilo. É processo longo?. O filósofo também disse que a ideia de fugir do Brasil para buscar um país com melhores perspectivas pode não dar certo. ?Em termos políticos, o mundo está bastante atrapalhado. Eu não vejo nenhum candidato animando ninguém no mundo?, pontuou.

Avançar com reformas

Deltan Dallagnol, procurador da República, participou do evento e voltou a afirmar que só a Operação Lava Jato não é o suficiente. ?A cada ano fizemos o mesmo diagnóstico e recomendamos o mesmo tratamento, isso desde 2014. A Lava Jato por si só não é suficiente. Nós, como país, precisamos avançar com reformas que mudem os incentivos que existem no sistema político e que façam com que casos como a Lava Jato não sejam pontos fora da curva da impunidade. Precisamos mudar isso?, afirmou.

O procurador citou índices de corrupção nos diferentes âmbitos para demonstrar que os desvios de conduta são maiores do que os detectados na Petrobrás. ?A corrupção na esfera federal chega a 5 %, na estadual 10% e na municipal chega a 30%. Uma das empresas que falou com a Lava Jato apontou mais de 1800 políticos envolvidos no esquema de desvio de dinheiro?, disse.

Para ele, nenhuma solução que fuja da política levará ao caminho certo. ?Nós não demonizamos a política. A única solução é via política. O que precisamos é de políticos comprometidos com mudanças?. O procurador também disse entender o desânimo e o descrédito da população em relação às instituições. ?Chega um ponto em que as pessoas passam a flertar com ideias não democráticas. Sendo que o que precisamos é de mais democracia?. Ao concluir o seu discurso ele também lembrou que a corrupção é uma moeda de duas faces: ?tem quem recebe, mas tem quem paga?.

Cases

A Votorantim levou a gerente de Riscos e Compliance, Ana Carracedo, para contar as práticas da empresa. Ela falou sobre o programa corporativo que determina funções e os instrumentos utilizados para garantir a conformidade dos negócios. Bastante avançada nas frentes de prevenção, a Votorantim possui também uma política para os terceiros e com o poder público. ?Em 2017, preocupada com a questão das eleições, a companhia estabeleceu um processo formal de doações. Toda e qualquer doação que for solicitada para a Votorantim é registrada. A gente procura entender como esses pedidos são feitos. Monitoramos também por meio de um sistema de inter-relação governamental todas as interações que cada executivo do grupo tem com alguém do poder público?, explicou.

Roberta Codignoto, executiva jurídica de Compliance da Staples e membro da Aliance for Integrity ? organismo internacional que fomenta práticas de integridade com pequenas e médias empresas ? falou do trabalho da entidade para multiplicar profissionais aptos a desenvolverem programas de compliance. ?O mercado é composto por quase 90% de pequenos negócios. Precisamos apoiá-las para que caminhem no rumo certo?.

Fábio Malina Loss, ex-diretor de Governança, Risco e Compliance da Copel, contou quais foram as frentes de trabalho para aprimorar a governança da companhia de energia elétrica paranaense: o funcionário e a área envolvida como primeira linha de combate; diretoria de governança de risco e compliance na segunda instância; e por último, a auditoria interna.

Para ele, ?falar sobre corrupção é falar sobre a natureza humana. A luta contra a corrupção é inglória, pois dificilmente vamos acabar com ela. Quando muito, conseguimos minimizá-la?, defendeu e completou ao dizer que ?a burocracia é inimiga da integridade. É o meio que cria dificuldade para depois vender facilidade?.

Aprendizado com a crise

Reynaldo Goto, diretor da área de Compliance da Siemens do Brasil, contou um pouco da experiência da companhia com uma crise envolvendo dinheiro irregular. ?Começamos a conhecer a pior fase da nossa história pela mídia, fase que nos arrependemos e todas as vezes necessárias vimos a público pedir desculpas. Éramos signatários do Pacto Global da ONU. Mesmo assim, alguns dos compromissos não vivenciamos?, contou.

De acordo com ele, pior do que a multa a ser paga pelo desvio de conduta é o descrédito. ?A multa é um alívio, pior que a multa são os funcionários que não acreditam nos valores das empresas, fornecedores que não querem mais entregar?.

Lançamento

O Sistema Fiep lançou durante o Fórum o Portal ODS (www.portalods.com.br), um site que reúne conteúdos para que as empresas possam participar ativamente dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentáveis.